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O LAÇO E O ABRAÇO
1-4-2011 por Estou Contigo

Mário Quintana

Meu Deus! Como é engraçado!
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço… uma fita dando voltas.
Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.

É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.
É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço.

E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando…
devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.

Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.

Ah! Então, é assim o amor, a amizade.
Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita.
Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora,
deixando livre as duas bandas do laço.

Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.
E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.

Então o amor e a amizade são isso…
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço.

DUALISMO
27-11-2010 por Estou Contigo

Olavo Bilac 

Não és bom, nem és mau: és triste e humano…
Vives ansiando, entre maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando mum vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

CIRANDA DA BAILARINA
7-8-2010 por Estou Contigo

(Edu Lobo e Chico Buarque)

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem…

POEMA VITORIANO RECITADO POR NELSON MANDELA, ENQUANTO PRISIONEIRO, QUANDO EM DEPRESSÃO
3-8-2010 por Estou Contigo

 
SOB O MANTO DA NOITE QUE ME COBRE,
NEGRO COMO AS PROFUNDEZAS DE UM POLO A OUTRO,
EU AGRADEÇO A TODOS OS DEUSES
POR MINHA ALMA INVENCÍVEL!
 
NAS GARRAS FEROZES DAS CIRCUNSTÂNCIAS,
NÃO ME ENCOLHI NEM DERRAMEI MEU PRANTO.
GOLPEADO PELO DESTINO
MINHA CABEÇA SANGRA,
MAS NÃO SE CURVA.
 
LONGE DESTE LUGAR DE IRA E LÁGRIMAS
SÓ ASSOMA O LOUVOR DAS SOMBRAS
AINDA ASSIM, A AMEAÇA DOS ANOS ME ENCONTRA
E ME ENCONTRARÁ SEMPRE
DESTEMIDO!
 
POUCO IMPORTA QUÃO ESTREITA SEJA A PORTA
QUÃO PROFUSA EM PUNIÇÕES SEJA A LISTA
SOU O SENHOR DO MEU DESTINO!
SOU O CAPITÃO DA MINHA ALMA!
 
Fonte: filme “Invictus”

Poema enviado por Deise Luci de Belo Horizonte/MG
16-3-2010 por Estou Contigo

Mulher…
Que traz beleza e luz aos dias mais difíceis
Que divide sua alma em duas
Para carregar tamanha sensibilidade e força
Que ganha o mundo com sua coragem
Que traz paixão no olhar
Mulher,
Que luta pelos seus ideais,
Que dá a vida pela sua família
Mulher
Que ama incondicionalmente
Que se arruma, se perfuma
Que vence o cansaço
Mulher,
Que chora e que ri
Mulher que sonha…
Tantas Mulheres, belezas únicas, vivas,
Cheias de mistérios e encanto!
Mulheres que deveriam ser lembradas,
amadas, admiradas todos os dias…

Para você, Mulher tão especial…
Feliz Dia Internacional da Mulher

 
Conto “Depoimentos”
7-3-2010 por Estou Contigo

SOBRAS DE AMOR

A mãe chegou no quintal da casa, livrou-se do fardo de lenhas, restou o peso da filha que ainda carregava na barriga prenha. Sentou-se prenha de alma de dor e dor de não saber quando seria o parto da falta de esperança do fim da dor infinda.

Acendeu o fogo com gravetos da última leva, esquentou a sopa, sobra da janta, com perplexidade da lembrança de saber-se sem dor ao fugir com o amor que a desprezara de sobra. Engolia o choro e ele descia goela abaixo com o caldo quente para a filha, sobra de sonho, com dor de solidão e do nada.

A filha sobra no físico, no viver e no doer, desejando sobrar na própria realidade para refugiar-se da dor de sobra da história lenhada, indiferente de ser e de amar.

Vem-lhe dentro da bolsa o líquido da sopa e do choro diluídos no amargo veneno do ser desprezado e descrente que a carrega. Aquela estufa líquida espuma com a sobra da dor. Sorve, então, goela adentro, frenético meio de sobreviver, o caldo quente da mãe, sobra do desaconchego e do chegar indesejado.

Filha e mãe, sobras de amor, deglutem a sobra das dores mútuas, procurando aliviarem-se, gemendo-se para consolarem o enfastio de carregar e ser carregada.

Em dado momento, a mãe não consegue deglutir mais o líquido quente, passando a lutar com os vômitos das sobras puxando da filha o desconforto de ser, irremediavelmente, a dor instalada, irreversivelmente em sobra. A tal ponto, com o refluxo dilatando a bolsa para rompê-la e se aliviar do peso da barriga, da continuidade, do sonho que seria partilhado não fosse o abandono como sobra da troca.

A filha, doída, reflui seu líquido e destino no ritmo da mãe para libertá-la do peso, imprimindo sua negação e assim apagar o testemunho de uma história diluída na dor.

Estira-se de parede a parede procurando saída, disposta para o doer que viesse, retorce o cordão para puxar o interior da dilaceração da mãe, para lhe dar esperança de que dentre suas sobras ficaria livre da mais infastiosa, aliviaria o peso de sua coluna, a dor de ninar a sobra da própria esperança e o testemunho indesejado.

A mãe sente contração de seus líquidos e das sobras em suas vísceras corre até a bica e sorve água fresca procurando reverter o diluir da vida da filha, chorando-lhe que não se vá porque a dor já é instalada e imutável, independente do seu existir.

A água escorre com dificuldade pelo esôfago até o útero e no caminho refresca cada fissura de dor das ânsias antes vividas, vai apaziguando e solta suas moléculas pelos atalhos necessários para acalmar também a filha, pronta para sobrar-se.

A filha deglute lágrimas com as sobras dos goles da mãe e as lança de volta para sua fonte através dos pulmões provocando-lhe respirações profundas, buscadas de ar, fôlego, calma, aceitação das sobras e a mãe, por sua vez, puxa fundo o ar como uma afogada na dor e aspira mais, coração bate mais forte, esperança forjada goteja dos poros com os suores, cansaço se esvai e vai e, vem o sentir menos fraca de dor, passa a mão na barriga entortada para o lado, que permanece prenha e conformada com as sobras.

Levanta-se, ajeita a filha conformando-a com sua coluna e vai apanhar a resto de lenha para guardar no borralho.

Logo depois, ambas aquietam-se, aquecendo-se como se a friagem fosse apenas da tardinha de inverno….

(Depoimento de uma jovem mulher de Minas Gerais – iniciais: OVR)

Chico Buarque
7-3-2010 por Estou Contigo

” Eu quero ver um dia

numa só canção

o pobre e o rico

andando mão em mão

Que nada falte

que nada sobre

o pão do rico

o pão do pobre” (Chico Buarque)

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